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Missão integral e ação profética: desafios a uma fé engajada na igreja PDF Imprimir E-mail
Introdução[1]

Meu propósito nessa conversa será o de fazer uma breve avaliação crítica da questão do engajamento (social, político, cultural, histórico) da igreja evangélica brasileira. Sei da amplitude desse assunto, e não pretendo esgotá-lo aqui. Apenas quero olhar um pouco para a atuação ou não dos evangélicos no contexto brasileiro e então apontar algumas pistas ou desafios para que a igreja esteja cada vez mais engajada (comprometida, envolvida) com essa realidade.

Para tanto, minha reflexão está embebida da influência do “evangelicalismo integral”, advindo do movimento de Lausanne, que por sua vez nos remete ao Congresso realizado em Lausanne, Suíça, em 1974. Deste congresso saiu um documento que ficou conhecido como Pacto de Lausanne, e posteriormente veio embasar o conceito e a práxis da teologia da missão integral na América Latina. Ao longo desta exposição, farei uso de parte do conteúdo deste pacto para o que aqui nos interessa, mostrando, também, sua atualidade e relevância.

Engajamento? Onde e quando mesmo?

Ao tratar de “engajamento”, não posso abster-me de falar do que esta palavra significa hoje, seja na igreja, seja fora dela. Não tenho dúvidas que se trata de um termo “fora de moda”, e aqui não estou sendo pejorativo. Vivemos em uma sociedade pós-industrial, pós-histórica, pós-moderna, consumista e globalizada, onde quase não há mais agenda para a luta pelos interesses coletivos. Pelo contrário, se exalta cada vez mais a primazia dos interesses privados: do indivíduo, de sua tribo, de seu gueto, de sua confraria. A palavra de ordem da sociedade de consumo é “conforto”, e o grito de guerra é a nova música do Jota Quest: e se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou[2].

O conforto é uma das grandes ambições do ser humano, um verdadeiro lema de vida. Caminhamos em busca de uma espécie de “paraíso perdido”, como se Adão e Eva tivessem se arrependido de conhecer o “lado sombrio” da existência – tendo, porém, de se contentar em trabalhar pra sobreviver às custas de seu próprio suor, em saber que todo prazer relativo a esta vida é efêmero e que nada mais será como no “passado”, quando predominavam a inocência e a despretensiosidade. É óbvio que o conforto é bom, isso “ninguém pode negar”. Contudo, há pelo menos dois enganos comuns referentes à palavra “conforto”.

O primeiro deles diz respeito à ânsia humana por um lugar confortável no mundo. Constantemente nos prendemos a tentativas, quase sempre mal-sucedidas (salvo engano), de evitar a realidade, de enxergar situações cotidianas como elas são e acontecem, de saber que nosso mundo está repleto de dores, as quais começam, tantas vezes, dentro de nossos seguros lares, com nossas famílias e seus dilemas, até chegar na sociedade como um todo. Violência, guerra, desemprego, miséria, gente mendigando pelas ruas, morte... Quem, hoje, está disposto a encarar todas estas e outras conjunturas? Nosso pecado maior talvez seja o da indiferença. Estamos sempre evitando situações que possam nos causar aquele tipo de desconforto insuportável, aquele que incomoda nosso âmago egocêntrico.

Há um outro engano, talvez ainda mais nocivo, que gostaria de mencionar: a busca por um lugar confortável ao lado de Deus. Nosso comprometimento com Deus (o deus-ópio dos anseios humanos) está permeado por um ligeiro utilitarismo, seja proposital ou não. Amar ou se submeter a ele, há muito tempo, deixou de ser uma questão de entrega pessoal, passando a ser um condicionante circunstancial, isto é, só amo ou sigo a Deus enquanto ele me for útil ou conveniente. Assim, as expectativas geradas estão de acordo com a concepção de que, ao lado de Deus, sempre encontraremos conforto e “favor” em todas as situações. Isto é uma grande falácia, posto que com Deus (ou “sem Deus”) a vida não é só feita de ganho e refrigério, mas também de perdas, descontentamentos e consternações.

É lógico que, em variadas circunstâncias encontradas na Bíblia, Deus mantém as promessas de que, ao seu lado, encontraremos conforto no enfrentamento de nossas angústias. Todavia esta segurança não nos exime da dor, apenas a alivia e dá a ela renovada esperança; não nos livra das idiossincrasias e inconstâncias do mundo, mas nos ensina a enfrentá-las com discernimento, entendendo que fazem parte da vida, afinal “o sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer”, diria o poeta Renato Russo. O mundo está em constante distúrbio, e assim permanecerá. Portanto, não há lugar suficientemente confortável no mundo real, a não ser que optemos pela alienação, pelo ópio, ao invés de aprofundarmo-nos na realidade, progredindo espiritualmente, porém, com os pés-no-chão.

Vivemos nada mais que o resultado de um momento histórico, que atinge a vida toda e a sociedade em seus mais diversos setores. Quase não se fala mais em revolução, em transformar o mundo, em gerar incômodo ou desinstalar as pessoas de seus lugares de comodidade, pelo menos não tanto quanto se falava e agia-se há pelo menos vinte anos atrás. Muito pelo contrário. A apatia tem extrapolado seus limites e a ambição por esse lugar de conforto tem sido a grande ilusão plantada na mente do ser pós-moderno.

A juventude e a religiosidade do eu (self-religion)

Não vemos mais aquele brilho nos olhos de nossa juventude, nem a consciência da realidade, vitalidade e luta que marcou toda uma geração na década de 80, por exemplo, a chamada “geração perdida”. Uma geração que foi às ruas, brigando por um Brasil mais justo e igualitário, por uma universidade melhor, mais aberta e inclusiva. E fico me perguntando, se aquela geração – que ainda tinha motivação para brigar por seus direitos e que acreditava em mudanças – pôde ser considerada “perdida”, o que se pode dizer desta, que, em geral, tem se demonstrado sem esperança, alienada, marcada pelo individualismo e o espírito de incerteza de nosso tempo?

Outra pergunta que podemos nos fazer é: até que ponto nossa juventude evangélica também não tem imergido nessa maré pós-moderna de hedonismo, consumismo, “lipoaspiração” e desconexão com a história? Será que não temos sido tão propagadores dessa “desplugação” geral quanto aos valores de comprometimento e solidariedade para com o outro, ao adotarmos indiscriminadamente a novas formas de religiosidade do eu que por aí se tem difundido? Parece-me que uma resposta contundente está nas palavras de Marcelo Gualberto:

Os jovens evangélicos de hoje nasceram e cresceram sob um tipo de ‘ditadura musical’ não institucional que praticamente excluiu da agenda e da liturgia a Palavra, estabelecendo infindáveis “períodos de louvor” – não raro, liderados por pessoas absolutamente despreparadas ou não vocacionadas. O microfone passou das mãos dos pregadores para as mãos dos músicos e cantores. Estes, por sua vez, incentivaram a juventude a mandar ‘beijinhos pra Jesus’, ‘orar de madrugada porque a fila é menor’, ‘sentar no colo do Pai e puxar sua barba’, ‘ter um romance com Deus’, ‘correr na casa do Pai’ e desenvolver uma espiritualidade utilitarista, pela qual o servo passa a ser o senhor que determina e “toma posse” da benção, que considera uma obrigação divina[3].

Gualberto ainda oferece algumas pistas sobre que jovem surgiu na igreja evangélica como fruto desse tipo de espiritualidade. Três características são apontadas[4]:

1) Juventude religiosa no discurso, mas incrédula na prática. Nossas igrejas estão cheias de jovens cujo discurso não combina com a prática (isso quando tem discurso). É crescente o número de jovens, mas também é crescente o número dos que engrossam a fila dos “sem-religião”.

2) Juventude conectada, mas imatura. É uma juventude conectada com as transformações no famigerado mundo gospel, porém imatura espiritualmente por falta de interesse no estudo sistemático da Palavra. É bem-informada, mas com uma pobre formação teológica.

3) Juventude sarada e talentosa, mas cansada e indisponível. Embora faça parte dessa geração saúde, fitness, que adora corpos bem-cuidados, está cansada por inúmeros compromissos, e por isso mais propensa à busca por um evangelho Light, e a viver apenas o cosmético da fé.

É difícil, mas temos de confessar e lamentar que nossos sonhos como igreja hoje não ultrapassam mais os devaneios de consumo da sociedade pós-industrial e selvaticamente capitalista em que vivemos. Que nossos anseios por mudança não passem mais por propostas fecundas de reforma social e política, através do engajamento nas estruturas sócio-políticas e nos movimentos de base. Que a razão de ser de nossa criatividade e mente cristãs seja a de gerar e gerir estratégias de acomodação dos crentes e de crescimento da igreja (Robinson Cavalcanti diria “inchação”). Que nosso estilo de vida, que supostamente deveria ser semelhante ao do Mestre, seja tão fechado em si mesmo, restringindo-se ao medíocre “triângulo da felicidade”: casa-igreja-trabalho[5].

Bases bíblico-teológicas para o engajamento e a ação profética

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresentei o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Rm 12.1-2)

São Gregório, o Grande, já diria: “É melhor arriscar-se a provocar um escândalo do que calar a verdade”. Hoje, temos feito o inverso: calado a verdade para que o escândalo seja o menor possível, e o esvaziamento de nossas igrejas seja uma possibilidade remota. Endossamos definitivamente a religião do self. É um evangelho às avessas. Importa que o(a) crente saia da igreja feliz, de bem com a vida, satisfeito e quase que flutuando em “espiritualidade”, mesmo que isso não produza uma base sólida para que ele(a) possa enfrentar os dilemas e adversidades do dia-a-dia com o discernimento e a lucidez do Espírito. Não. O que acontece é que os problemas se acumulam e permanecem lá, na família, no trabalho, na vida cotidiana, e será preciso mais uma dose de culto, de louvor, de êxtase na veia do crente pra que ele possa suportar as pressões externas contra as quais não tem sido educado na igreja a resistir com a força e sabedoria do alto, mas com a droga dos “cultões” e “louvorzões”, da qual tanto prezamos e dependemos.

É uma igreja que perdeu o foco da missão e transformação do ser humano todo por meio da vivência e proclamação do evangelho em sua integralidade. Os cristãos reunidos em Lausanne fizeram a seguinte confidência: Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou por nos termos isolado demasiadamente[6]. Qual é o impacto e atualidade dessa afirmação para a igreja evangélica hoje? Será que temos sido menos conformados com este século que nossos irmãos admitiram estar sendo em 74? O que, afinal, caracteriza essa conformação com o mundo?

Agir em conformidade com o mundo é assumir a sua forma. Uma igreja que se conforma é aquela que absorve ou é absorvida pelo estilo de vida preconizado pelo mundo e pelos seus sistemas. É aquela que se curva aos seus ditames, cooperando para a propagação dos imperativos que têm impregnado as mentes de homens e mulheres no século XXI, tais como o consumismo e o individualismo. Conformismo, segundo Cavalcanti, “é um ajuste às estruturas existentes de forma acrítica, passiva, preguiçosa, abúlica”[7]. Por outro lado, poderíamos falar de uma igreja que rejeite esse ajuste, por se afastar demasiadamente dos “valores mundanos”. Mas não deixa de ser conformada, à medida que se compromete mais com a manutenção de suas estruturas e, conseqüentemente, não abre espaço para a solidariedade, alteridade e transformação tanto no pensar como no agir.

Uma igreja conformada é, no linguajar de Robinson Cavalcanti, uma comunidade do reino que “perdeu o reino”. A igreja é o “novo Israel” que substitui o velho Israel. Falhará a igreja em antecipar os sinais do reino que já veio a partir de Cristo? Terá razão um certo pensador quando diz que o reino poderá vir “por meio da igreja, sem ela ou, até, contra ela?”. Só Deus sabe.

O fato é que, em sua Palavra, ele nos insta a que sejamos inconformados com o presente século. Quem são as pessoas inconformadas? De acordo com Cavalcanti, “inconformados são aqueles que se recusam a tomar a forma, que emburram diante das formas, sua forma é outra; elas são inconformadas, negam-se a tomar a forma”[8]. Um dos desafios de uma igreja engajada e militante é o inconformismo. É também uma das maneiras de atestação de que o reino “já” veio, como outra vez diz Cavalcanti:

O reino é ainda atestado pela nossa inconformação, nossa rejeição e atitude crítica em relação ao estado de coisas contrário ao modelo de Deus: o anti-reino das trevas e nossa transformação, de nós próprios e de nossos relacionamentos, pela renovação de nossa mente, que sintoniza a mente de Cristo e agora consegue ver além da mera letra[9].

Quero aqui sugerir pelo menos mais três desafios à agenda da igreja evangélica brasileira, à vivência de uma fé engajada na e através da igreja.

1. Uma igreja presente no mundo, encarnada e aberta para o diálogo

“Que estrago fez o neoplatonismo em nossa igreja, desencarnando-a, desencarnando a nossa mensagem, reduzindo-a a uma ginástica cerebral e a um inconseqüente exercício místico”[10]. Com isso, Cavalcanti afirma que uma corrente filosófica chamada dualismo, a qual pressupõe a divisão entre corpo e alma, sagrado e profano, mundo terrestre e espiritual, tomou conta do pensamento e estilo de vida desenvolvido na igreja cristã nos últimos tempos. Prova disso está na idéia, ainda corrente no meio evangélico, de que existem lugares mais sagrados que outros, ou até mesmo práticas que configuram uma consagração, visto que privilegiam a elevação da alma ou espírito em detrimento da matéria, em si, má.

Durante muito tempo, ser cristão significou (e em alguns contextos ainda significa) viver uma vida extremamente regrada e obediente, conforme os dogmas e a reta doutrina da igreja. A identidade cristã (evangélica), assim, é uma identidade fixa, inflexível, baseada num tradicionalismo engessado e estéril. Essa concepção ainda sobrevive, e é resultado também da influência do fundamentalismo norte-americano que pra cá foi exportado. O que predomina nesse modelo é o isolacionismo, isto é, a ausência do mundo. Mundo, para nós evangélicos, é tudo aquilo que “jaz no maligno” e nada se pode fazer por ele.

Há uma patente confusão aqui entre “ser” e “estar” no mundo. “O mundo que jaz no maligno não é a criação de Deus, mas todos os sistemas que se afastam do modelo de Deus”[11]. Em sua oração sacerdotal (João 17), Jesus afirma que nem ele, nem tampouco seus discípulos “são” do mundo (no sentido de provir, pertencer). Provimos do e pertencemos ao Pai e ao Reino dos Céus. Porém, a verdade que nos desafia é que, assim como o Pai enviou Jesus Cristo ao mundo, como expressão inequívoca de seu grande amor pelo mundo, o mesmo Jesus agora nos envia ao mundo como embaixadores de uma “revolução silenciosa” que deve ser produzida pela encarnação desse amor no mundo.

Dessarte, uma igreja engajada é aquela que se faz presente no mundo a fim de transformá-lo, se juntando a ele como expressão do “sim” de Deus ao mundo (David Bosch), endossando a profunda amabilidade divina por toda a criação. Conforme o Pacto de Lausanne, “a nossa presença no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender”[12]. Uma outra expressão desse engajamento está no confronto e negação das realidades de morte que no mundo imperam, como outra vez recorda o Pacto: “a mensagem de salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam”[13].

A igreja hoje é chamada a lutar contra a morte, a resistir às forças de morte. Essa tarefa começa por afastar as vozes da morte, que dizem: “isto não dará certo”; “O Brasil não tem jeito”; “Por que trabalhar quando tudo o que edificamos pode ser destruído por outros?”; “Lutar pra quê, militância é coisa do passado”; “Por que realizar mais um encontro, escrever mais um livro ou gastar tempo debatendo quando a realidade não quer ser transformada?”. Em oposição às vozes discursivas que nos rodeiam, precisamos aplicar a resistência da voz cristã, que deve ser uma ressonância da voz do Espírito de Deus. De acordo com Henri Nouwen, resistência “significa dizer ‘não’ para todas as forças de morte onde quer que elas possam estar e, como corolário, dizer um claro ‘sim’ a tudo o que representa a vida, sob qualquer forma em que possamos encontrar”[14].

2. Uma igreja educada teologicamente, íntegra politicamente e profética ativamente

“A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta[15]. Apesar dessa consciência dos líderes reunidos em Lausanne, bem como o esforço posterior da ala evangelical da igreja latino-americana em divulgar sua missão integral, vimos poucos avanços em termos de aceitação dessa teologia entre a imensa maioria dos evangélicos no Brasil, por diversos fatores que aqui não vale nomear.

Após anos e anos de resistência da ala fundamentalista-conservadora da igreja quanto ao seu engajamento na política, também da luta inglória dos cristãos progressistas instando a que acordássemos para a necessidade urgente de assumirmos nosso papel como cidadãos também daqui e não somente do reino e a levantarmos nossas vozes contra as injustiças que imperam e nosso país, chegamos em 2006, diria eu, com um saldo negativo. Não me refiro apenas ao desinteresse geral das pessoas pela política ou por projetos que englobem o coletivo. O fato que marca a participação dos evangélicos na política hoje é que ainda persistem mentalidades e posturas antigas, aliadas ao conformismo generalizado e à visível apatia dos cristãos tipicamente pós-modernos. O “folclore evangélico” vigente na sociedade civil é dos mais plurais e deturpa os princípios do Evangelho. São deputados evangélicos com malas cheias de dinheiro provenientes sabe-se lá de onde; é a idéia do “crente não se mete em política” ainda como sinal de uma convalescente alienação dos evangélicos; é a ideologia do “irmão só vota em irmão” corroborando aos malefícios do curralismo eleitoral evangélico e a antiga busca por representatividade e beneficiamento próprio.

Embora existam iniciativas relevantes de vozes dissonantes da maioria no meio evangélico, tem-nos causado pesar e vergonha, o fato de que a política, um dos meios de participação na sociedade civil, não tem sido aproveitada para aplicação ao bem comum, mas como trampolim de projetos pessoais e corporativistas que, na maioria dos casos, atendem às ambições de poder de líderes mal-intencionados e totalmente despreparados para exercer os cargos para os quais foram eleitos. Robinson Cavalcanti escreveu há anos atrás que,

Grosso modo, estamos trocando a alienação por uma presença conservadora, reacionária, comprometida, clientelista e fisiológica. Lotes de votos estão sendo negociados em troca de lotes de terrenos, telhas, tijolos e empregos. Políticos evangélicos têm apoiado teses as mais danosas aos interesses do bem comum do povo brasileiro. Em vez de sermos parte da solução, estamos reforçando os problemas[16].

O envolvimento com as estruturas de poder requer, acima de tudo, o exercício da ética cristã e um caráter que se molda ao de Cristo. Não bastam boas intenções no sentido de ajudar a igreja ou aos irmãos da fé, nem uma cristalização da moral individual, mas uma atitude profética e um inconformismo santo com as injustiças que grassam nesses lugares. Precisamos de mais co-beligerância (inclusive com não-cristãos) em projetos de reflexão e ação que convirjam aos valores do reino, privilegiem o bem comum e a transformação integral da sociedade. Projetos que passem pela inclusão dos mais pobres, a conscientização dos mais abastados e sua mobilização junto aos intelectuais e a elite esclarecida, por uma sociedade mais justa e fraterna, que combata a violência e todas as formas de exclusão e alienação.

Parafraseando Cavalcanti, “não podemos ficar presos ao pêndulo que vai de uma santidade fora da cidadania até uma cidadania sem santidade”[17]. Assim, toda a igreja é convocada a ensinar todo o conselho de Deus ao ser humano todo, compartilhando com todos aqueles a quem chamamos “próximo”, das mais inusitadas formas e nos mais diferentes contextos, as boas novas e valores do reino de Deus. Esse talvez possa ser um bom resumo para aquilo que chamamos de missão integral da igreja.

3. Uma igreja com um coração ardente, cheio de misericórdia e compaixão aos feridos

O chamado de Jesus à sua igreja continua sendo o do engajamento. E, como se engajar significa envolver-se, botar a “mão na massa”, mexer com as sujeiras e podridões da sociedade em que vivemos mesmo que, com isso, venham a “feder” mais, então esse chamado precisa ser temperado por uma paixão incondicional por Jesus e sua maneira de lidar com o ser humano, por um coração cheio de misericórdia, daqueles que também foram recebidos com misericórdia, e pela compaixão. Diz o texto de Mateus 9.36: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas, como ovelhas sem pastor”. Quando olhamos para as multidões nos dias de hoje, não da sacada do prédio, mas do plano em que elas estão, o que vemos? Que tipo de reação deveria ser provocada em nosso coração por aquilo que vemos? Afinal de contas, como definir as multidões de nosso tempo, e mais, como o poder transformador do evangelho poderá alcançá-las?

O texto de Mateus diz que Jesus andava por todas as partes, curando e ministrando a palavra, cumprindo o ministério que a Ele fora designado pelo Pai. Jesus lidou com todo tipo de multidão em seu ministério: a multidão dos que creram em sua mensagem; a multidão dos afoitos para ver milagres, sinais e prodígios acontecendo; a multidão dos religiosos enfurecidos com sua pregação revolucionária, cobras que aguardavam o momento certo para “dar o bote”; e a imensa multidão dos pobres, doentes, malditos e excluídos pela sociedade, a quem ninguém prestava a atenção.

Multidões e mais multidões, diferentes expectativas, propósitos, sonhos, necessidades, etc, mas com uma carência básica em comum: a de pastoreio para suas vidas. De alguém que se compadecesse o suficiente, entendesse o bastante e fosse eficazmente capaz de cuidar, compreender suas aflições e amar sem pedir nada em troca. Isso denota não apenas a falta do Supremo Pastor (Deus) na vida dessas pessoas, mas também de trabalhadores que, submissos ao chamado do Senhor da Seara, se dispusessem em ir à colheita, doando seu tempo e cuidados para que ela seja uma boa colheita.

Jesus olhou para as multidões e teve compaixão delas. Compaixão é diferente de dó. Dó é um sentimento de alguém que está distante do outro e nada pode (ou quer) fazer a respeito da dor alheia (por isso é desprezível, uma piedade de fachada, egoísmo disfarçado). Compaixão, porém, literalmente significa padecer junto, sofrer junto, sentir a mesma paixão, se colocar na mesma dimensão, partilhar do lugar existencial em que o outro se encontra e estar suscetível às contingências desse lugar tanto quanto o outro está. Uma coisa é saber que milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza. Outra é vivenciar uma situação em que se está “abaixo da linha de pobreza”, parafraseando César M. Lopes[18]. Uma coisa é ter consciência do mix de confusão, alienação, competição, depressão e carências que são vividas pelos jovens universitários hoje. Outra bem diferente é entrar no meio de tudo isso sem se julgar um estranho, alienígena ou pensar que nada daquilo tem a ver contigo. A compaixão, segundo Henri Nouwen,

É a via para a certeza de que somos cada vez mais nós mesmos, não quando somos diferentes dos outros, mas quando somos uma e a mesma coisa. Na verdade a principal questão espiritual não é: ‘Qual o teu contributo específico?’, mas: ‘O que é que tu tens em comum?’. Não é o ‘suplantar’ mas sim o ‘servir’ que faz de nós pessoas mais humanas; não é o demonstrarmos a nós mesmos que somos melhores que os outros, mas sim confessarmos que somos precisamente como os outros[19].

A impressão que tenho é a de que perdemos a capacidade de chorar, lamentar e nos compadecer pela dor e a desgraça alheia. Todos os dias vê-se nos noticiários um bocado de gente sofrendo pela violência e exclusão engendradas por um sistema que propõe a “liberdade”, mas uma liberdade que apenas alguns gozam. Roubos, seqüestros assassinatos, prisões; é gente sofrendo e fazendo sofrer por todos os lados, do banco do ônibus ao carro importado: torturas, humilhações e morte. E a gente? “A gente ta vendo tudo, ta vendo a gente... querendo ou não”, é o que disse o cantor Gabriel O Pensador[20].

O problema, outra vez digo, está na indiferença e na apatia de todos nós, em acharmos que essas ocorrências ao nosso redor não nos dizem respeito. Mas, se Salomão estava certo sobre a inevitabilidade de certos males nesta existência sem sentido, o que inclui tanto ímpios quanto justos, uma hora “o raio” poderá atingir a qualquer um de nós. Não há homem que não peque, assim como não há quem não sofra as conseqüências de seus atos ou de sua inoperância. Quando formos abordados diretamente por um desses males, quem sabe acordemos para a realidade, abramos nossos olhos e vejamos, a partir de nosso próprio sofrimento, nosso Deus chorando pela dor e os gemidos de sua criação. Então, as dores do mundo não poderão ser esquecidas ou ignoradas, como diz Henri Nouwen:

Nossa dor faz com que experienciemos o abismo de nossa própria vida, no qual nada está estabelecido, claro ou óbvio, mas tudo está constantemente passando e mudando. E, à medida que sentimos a dor de nossas próprias perdas, nossos corações, doendo, abrem nosso olho interno para um mundo no qual as perdas são sofridas muito além de nosso próprio mundinho de família, de amigos e de colegas. É o mundo de prisioneiros, refugiados, pacientes de aids, crianças famintas e os incontáveis seres humanos que vivem em constante medo. Então, a dor de nossos corações chorosos conecta-se com os lamentos de uma humanidade que sofre. Então, nosso luto torna-se maior que nós mesmos[21].

Conclusão

Ao concluir esta reflexão, lembro-me de um outro poeta, o cantor evangélico João Alexandre, quando afirma em uma de suas músicas que: “Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados. O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive não, pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive”[22]. Precisamos conhecer melhor o Deus a quem dirigimos tantos sacrifícios de louvor e adoração. Adoração é muito mais do que isso que se tem ensinado nos cultos (e agora até em escolas próprias pra isso). Por que? Porque a adoração inclui o cumprimento da missão; tem muito mais a ver com o ser de Deus e sua natureza operando em nós pelo Espírito, que com nosso desejo, sincero ou abominável de barganhar com ele e de tentar agradá-lo. Todos os “agrados” e “mimos” que Deus poderia receber já foram dedicados por Jesus na cruz. Está consumado! Todo louvor, glória e adoração, daí pra frente, devem ser produto da graça em e por meio de nós. Do contrário, lembrando das palavras de Jesus, nossa justiça em nada excede à justiça dos escribas e fariseus.

Deus não precisa de sacrifícios! Ele disse: “Misericórdia quero, não sacrifício, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos” (Os 6.6). Ele não entra no jogo sórdido das barganhas humanas. Ele quer menos ortodoxia (doutrina certa) e mais ortopraxia (prática certa), na verdade, uma tem que ser resultado da outra; menos consciência de um compromisso, e mais encarnação desse compromisso: com a justiça, a paz, a liberdade, envolvendo-se, engajando-se. Se cantar o amor de Deus é bom, melhor é viver. Que ele nos encha de discernimento e coragem!



[1] Palestra proferida originalmente no Congresso Micro-Regional da ABU Londrina, realizado em 18 de Novembro de 2006, na UNIFIL, Londrina, PR.

[2] Jota Quest. O Sol. CD: Até onde vai. Epic, 2005.

[3] GUALBERTO, Marcelo. Juventude evangélica: religiosa no discurso, mas incrédula na prática. In: O melhor da espiritualidade brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 230-231.

[4] Ibid, p. 232, 233.

[5] CAVALCANTI, Robinson. A Utopia Possível. Viçosa, MG: Ultimato, 1997, p. 22.

[6] PACTO DE LAUSANNE, artigo 1º.

[7] CAVALCANTI, Robinson. Igreja, um lugar de transformação e liberdade. Rio de Janeiro: GW, 2005, p. 19.

[8] Ibid.

[9] CAVALCANTI, Robinson. A Utopia Possível. Viçosa, MG: Ultimato, 1997, p. 119.

[10] Idem, p. 120.

[11] Ibidem.

[12] PACTO DE LAUSANNE, art 4º.

[13] Idem, art 5º.

[14] NOUWEN, Henri J. M. Estrada para a paz. Escritos sobre paz e justiça. São Paulo: Loyola, 2001, p. 65.

[15] PACTO DE LAUSANNE, art. 5º.

[16] CAVALCANTI, Robinson. A Utopia Possível. Viçosa, MG: Ultimato, 1997, p. 122-123.

[17] Idem, p. 123.

[18] LOPES, César M. Mobilizando a igreja local para uma missão integral transformadora. In: BARRO & KOHL. Missão Integral Transformadora. Londrina: Descoberta, 2005, p. 152.

[19] NOUWEN, Henri. Mosaicos do presente. Vida no Espírito. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 95-96.

[20] Gabriel O Pensador. Palavras Repetidas. CD: Cavaleiro Andante. Epic, 2005.

[21] NOUWEN, Henri. Com o coração em chamas. Aparecida, SP: Santuário, 2005, p. 21.

[22] João Alexandre. Em nome da Justiça. CD: O Melhor de João Alexandre. Koinonia Produções.

 
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